Instagram e YouTube são acusados de viciar crianças

24 de fevereiro de 2026

Instagram e YouTube são acusados de viciar crianças

Júri popular na Califórnia analisa se plataformas estimularam vício digital em crianças; caso reacende debate sobre regulação no Brasil

As duas maiores plataformas de conteúdo do mundo enfrentam um julgamento simbólico e jurídico no berço do Vale do Silício. Um júri popular na Califórnia avalia se os algoritmos do Instagram e do YouTube foram estruturados para estimular dependência em crianças e adolescentes. O caso ganhou dimensão internacional e recoloca no centro da discussão o modelo de negócio baseado em tempo de permanência e engajamento.

Reportagens do UOL, da Agência Brasil e do The New York Times detalham que o processo discute documentos internos das empresas, relatos de jovens usuários e estudos sobre impacto psicológico. Entre os dados apresentados, 19% dos adolescentes afirmaram já ter sido expostos a nudez no Instagram. A ação judicial teve origem na denúncia de uma jovem californiana que começou a usar redes sociais aos 11 anos e hoje, aos 20, atribui danos emocionais ao uso prolongado das plataformas.

O julgamento ocorre em um ambiente regulatório tradicionalmente favorável às big techs nos Estados Unidos, onde a responsabilização das plataformas enfrenta barreiras jurídicas históricas. Ainda assim, o fato de o caso ser analisado por um júri popular amplia o peso simbólico da discussão e pode gerar precedentes.

Para o advogado e especialista em tecnologia Leon Fagiani, associado da Apeti, o centro do debate deixou de ser apenas o conteúdo publicado.

“Estamos vendo pela primeira vez um julgamento que coloca o algoritmo no centro da discussão. A pergunta não é apenas sobre conteúdo inadequado, mas sobre engenharia de engajamento. É o debate jurídico sobre a disciplina da experiência do usuário (UX)".

Enquanto Instagram e YouTube enfrentam exposição pública, outras plataformas, como TikTok e Snapchat, já firmaram acordos confidenciais em ações semelhantes, evitando maior desgaste. Paralelamente, países discutem restrições de acesso para menores e mecanismos mais rígidos de verificação de idade, incluindo biometria e validação documental.

No Brasil, o cenário regulatório começou a se mover após o Supremo Tribunal Federal reconhecer a parcial inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, ampliando a discussão sobre responsabilidade das plataformas. O chamado ECA Digital também surge como tentativa de atualizar a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online.

Leon avalia que os efeitos do julgamento americano podem ultrapassar fronteiras.

“As decisões tomadas na Califórnia costumam irradiar efeitos para outros países e a lógica atual é debater leis depois que grandes danos aconteçam. Entendo que as comunidades brasileiras precisam se aprofundar nessa discussão, especialmente quando falamos de crianças e adolescentes. Talvez, seja o momento de focar mais na "Wellness Experience" do que na "User Experience".

O veredicto ainda não foi anunciado. Independentemente do resultado, o julgamento já produz um impacto concreto: colocou os algoritmos sob escrutínio público e transformou o debate sobre vício digital em pauta jurídica global.

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